A crise enfrentada pela saúde pública de Macapá ganhou novos desdobramentos políticos nesta terça-feira (5), após declarações feitas pela secretária municipal de Saúde, Renilda Costa, durante audiência pública na Câmara Municipal. Segundo ela, recursos federais destinados à capital foram retirados pelo senador Lucas Barreto logo após a renúncia do ex-prefeito Antônio Furlan, alvo de investigação da Polícia Federal na Operação Paroxismo, conhecida nos bastidores como “Propinão da Saúde”.
De acordo com a secretária, a Prefeitura havia cadastrado quase R$ 200 milhões em emendas parlamentares para reforçar a estrutura da rede municipal de saúde em meio ao cenário de dificuldades financeiras enfrentado pelo município. No entanto, os recursos teriam sido redirecionados para Santana, ampliando a pressão sobre unidades básicas, hospitais e atendimentos especializados da capital.
A fala provocou forte repercussão no meio político local e intensificou críticas sobre o impacto da retirada de recursos em um momento considerado delicado para a saúde municipal.
Secretária aponta falhas graves e suspeitas de irregularidades
Durante a audiência, Renilda Costa também apresentou um panorama crítico da situação encontrada na Secretaria Municipal de Saúde. Entre os problemas citados estão suspeitas de servidores fantasmas, ausência de controle efetivo de frequência de profissionais, falhas em atendimentos especializados e pagamentos médicos sem comprovação formal de produção.
Um dos pontos mais sensíveis abordados pela gestora foi o atendimento às crianças autistas no centro especializado conhecido como “Coração Azul”. Segundo ela, a equipe identificou profissionais cumprindo jornadas inferiores às previstas, situação que teria contribuído para o aumento das filas de espera.
“Como que nós vamos vencer a demanda? Como que nós vamos vencer a lista de espera? Não tem como”, afirmou a secretária durante a sessão.
O tema ganhou repercussão adicional pelo fato de Antônio Furlan e a ex-primeira-dama Rayssa Furlan serem pais de uma criança autista. Apesar disso, mães de crianças atípicas seguem denunciando dificuldades no acesso aos serviços especializados da rede pública municipal.
Ao comentar as reclamações das famílias, Renilda reconheceu o sentimento de abandono relatado por usuários da saúde pública.
“Quando as mães dizem assim: nós só somos enxergados em abril, é uma verdade”, declarou.
UBS com mais de 450 servidores entra na mira da Semsa
Outro trecho que chamou atenção dos vereadores foi a situação da Unidade Básica de Saúde do Perpétuo Socorro. Segundo a secretária, a atual gestão encontrou 452 servidores vinculados administrativamente à unidade, número considerado incompatível com a estrutura operacional do local.
A partir da constatação, a Semsa iniciou um recadastramento funcional e uma série de visitas técnicas para verificar a presença efetiva dos profissionais nas unidades de saúde.

“Recebemos documentos de servidores que nunca foram vistos nas unidades”, afirmou Renilda.
As declarações levantaram suspeitas sobre possíveis irregularidades administrativas e falhas de controle interno em gestões anteriores. A Prefeitura informou que realiza auditorias e revisão de vínculos para confirmar quais servidores realmente desempenhavam funções na rede municipal.
Pagamentos médicos passam por auditoria
Na parte final da audiência, a secretária revelou ainda que pagamentos médicos estavam sendo encaminhados à gestão acompanhados apenas de notas fiscais, sem comprovação detalhada dos atendimentos realizados.
Segundo Renilda, havia inclusive cobranças relacionadas a atendimentos no arquipélago do Bailique sem certificação adequada da produção médica. Diante disso, a nova administração decidiu submeter os pagamentos a auditoria individual antes da liberação dos recursos.
“Não iríamos ser irresponsáveis”, afirmou.
A audiência pública, inicialmente convocada para discutir a situação da saúde municipal, acabou expondo novos elementos da crise administrativa e política enfrentada pela rede pública de Macapá.